Avaliação, leitura e prazer: a urgência de um concílio

“o interesse do aluno é proporcional àquilo que sou capaz de tornar interessante”.

O exercício do magistério é mágico, desafiador, e, claro, muito cansativo. Desânimo é uma palavra, no mínimo, relevante na função de quem é professor, pelo menos das escolas de ensino básico. Desconfio que também para certo tipo de magistério praticado no nível superior. As motivações são várias, mas a relação aluno/escola estabelecida com as avaliações, para me limitar a um assunto, é um verdadeiro horror.
Fiz o meu ensino médio (na época 2º grau), no início da década de 80.  A escola era pública; os professores, em sua grande maioria, muito gabaritados, ainda que se notassem alguns índices de decadência – má conservação dos prédios, material escolar precário e racionado, funcionários insuficientes – na estrutura como um todo. Era morador da periferia de São Gonçalo, a minha escola estava a 37 quilômetros, exatamente no Centro de Niterói, minha cidade natal.
Entretanto, não estava exposto a tantas informações, como está o estudante, sobretudo o urbano, nos dias que correm. Na infância, a leitura não era nem hábito, muito menos uma paixão. Tenho lembranças boas de uma aula (eu deveria ter uns 7 ou 8 anos), em que lemos em voz alta um poema da Cecília Meireles. Eram vogais abertas que marcavam a leitura, as ilustrações que acompanhavam aqueles sons enchiam-me de sonho também. Li alguns livros em todos esses anos de primeira formação, mas nenhum que tenha me marcado.
A pessoa mais próxima a mim que efetivamente lia era papai. Não consigo desassociá-lo dos livros. Adorava a literatura barata dos faroestes, mas não deixava de citar aqui e ali autores (muito tempo depois tomei consciência) que ajudam a elaborar nosso espírito. Era uma frase de Balzac, era um pensamento de Nabuco, eram versos de Camões… Mas papai era homem calado, lembro-me dele com muito carinho, era homem de beijar todos os filhos, mas não era muito de conversa. Apesar de saber que a leitura era algo importante, aquilo ainda era insuficiente. O livro era, naquela época, muito mais um concorrente que propriamente um companheiro.
A família da minha avó materna lia, ou pelo menos apresentava índices disso. Eram jornais espalhados pela sala e uma estante razoável para pessoas de classe média. Lembro-me que havia uma espécie de disputa entre uma tia e uma irmã minha. As duas viviam lendo, mas o curioso é que, naquelas contendas, o principal não aparecia: o conteúdo do que liam, ler ali era uma espécie de poder e orgulho. Também nunca me senti convidado a fazer parte daquilo. E não lamento por isso.
Carlos, um primo com quem sempre estava nas férias, era um leitor diferente. Lia de tudo, mas o que lhe parecia dar mais prazer eram os gibis. Falava das origens de vários super-heróis. Aquilo me dava vontade de conhecer, de querer saber um pouco mais daquele universo narrado com tanto prazer. Foi assim que comecei a ler de fato. Foi admirando o mesmo primo que comecei a querer me informar mais, quer ficando atento às notícias da televisão, quer as veiculadas no jornal impresso. Odiava ficar boiando nos assuntos sobre os quais ele falava. Normalmente eram curiosidades científicas ou atualidades do mundo do cinema. Acabei me vendo numa disputa particular de poder, mas agradeço por isso.
No Prosa e Verso de hoje, há matéria interessante sobre os (des)caminhos da leitura. Há ali quem sugira a revitalização das bibliotecas, a revisão nos preços dos livros, como medidas para se melhorar o número e a qualidade de leitores. Muito válido! Definidor mesmo para se incrementar a dinâmica da leitura, entretanto, é o papel do difusor da leitura, que, claro, pode ser o pai, o irmão, a tia, a amiga, e, porque não, o professor. Difundir com paixão, sem a “obrigação” de, do contrário nem paixão seria! Eis uma das coisas que o professor deveria ter em mente: “o interesse do aluno é proporcional àquilo que sou capaz de tornar interessante”.
Talvez esse seja um caminho para tornar a relação aluno/escola estabelecida com as avaliações algo mais proveitoso.

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Professor de Língua Portuguesa do Colégio Pedro II.

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Publicado em Minhas letras
Um comentário em “Avaliação, leitura e prazer: a urgência de um concílio
  1. IVANA disse:

    Sim, sim… Sempre pensei, falei e berrei que alunos desinteressados podem estar sofrendo um professor desinteressado. O professor, querendo ou não, é um bom “vendedor”, de histórias, de conhecimento, de informação, de sabedoria, de interesses.

    Também tenho lembranças boas da infância, me lembro de todas as tentativas de incentivo à leitura de meus pais. Em especial, me lembro roupar um Edgar Allan Poe do meu pai, para ler escondido devido ao ciúme doentio que tinha do livro. Conseguir roubar, ler, escondê-lo até acabar a leitura para logo devolvê-lo. Ele nunca soube, mas mamãe era minha cúmplice.

    Adorei o post. Espero posts mais frequentes! Te ler é um prazer!

    Beijos,

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